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FIG: A pedagogia da amizade

À Ana Cléa


O FIG é grandioso demais e isso nos impõe um desafio: decidir qual a melhor atração. São 800 atrações espelhadas em diversos palcos. Como focar preferências? Como obter satisfação? E o desafio físico que é tentar ver tudo? Agora, diante de tudo, que declaremos a amizade como a maior atração de uma festival imenso e intenso como esse.


A amizade é o show mais grandioso que você pode ver no FIG, é o momento de se emocionar com o que é mais precioso nesse mundo, a presença de quem te abraça, de quem te fala verdades duras, a presença de quem você segura a mão quando o chão parece ter faltado e de quem te dá asas quando você precisa voar.


A amizade é um tipo de amor, um tipo diferente de amor. Platão é categórico, a paixão (isso que chamamos erradamente de amor) é um desejo de quem sofre. Algo que só se realiza na falta do objeto amado. O amor/desejo é uma falta não um preenchimento. O amor/desejo é uma esperança que nunca se alimenta porque só pode existir no próprio estado de inanição. Em outras palavras, a paixão é sempre o amor por algo que não existe, algo que não temos, porque é o amor pelo próprio desejar. Esse amor é sempre o amor pelo nada. A amizade é o amor distribuído ao que temos ao alcance do nosso coração, é o amor preenchido porque não precisa de falta alguma para existir. Não precisamos que nosso amigos nos faltem para amá-los, é bom amar nossas amizades ali, sem faltas, com risos que agradam, divergências sem luta, um exercício franciscano de amor que prefere “consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado” (o contrário do egoísmo dos apaixonados). Amizade é estra abraçado com o outro para partilhar uma leve e agradável satisfação de sabermos que não estamos sós no mundo e que desejamos o palpável e não o nada ou a falta do que amamos. Amizade é cura.


Amizade, amor concreto, amor que se vivencia, amor de contentamento porque amamos nossos amigos como eles são, sem expectativas, sem nada em troca, sem querer satisfazer nenhuma falta, de estar feliz que alguém existe e nem precisa estar próximo porque a amizade não requer posse, a amizade é o amor suprindo a si mesmo. Para expressar amizade basta sentir que o outro te faz feliz não porque você o possui mas porque ele existe na sua vida. E se o amor que nos faz sofrer na falta pode ser bom, o que dizer do amor que se realiza na alegria? Pois é isso a amizade, amor na alegria.


O FIG é uma oportunidade de reencontro com esse amor de alegria, uma oportunidade de exercitarmos nossas amizades, de aprendermos o valor da leveza de uma amor que nada espera, de partilhar arte, sorrisos e vinho. Mesa farta de palavras, olhares sinceros e boa conversa. O FIG nos dá a oportunidade de vivermos a pedagogia da amizade. Aprendamos a cultivar nossos amigos. Dar-lhes ouvidos, braços, e aquele tipo de amor supremo que todos nós devemos ter para com nossos amigos: A atenção. Não foi à toa que Simone Weil disse que : “A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade”. Agora é abrir um bom vinho e agradecer a cada um dos nossos verdadeiros amigos por eles existirem.


Texto: Pedro Henrique Teixeira


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